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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Cheguei atrasado no campeonato de suicídio ou “o cheiro da bebida e o barulho da festa”

A escrita de André Monteiro, em Cheguei atrasado no campeonato de suicídio, exala um cheiro do diário, do ordinário. Nos cinco livros-movimentos que a compõem – Pan-flertes: escritos de esquina, Caderninho das tormentas, Ossos do ócio, Cheguei atrasado no campeonato de suicídio e Ao vivo, um aspecto chama à atenção de forma especial: o modo como sua composição poética anseia pela abertura, pela inconclusão de uma linguagem que se anuncia obra incompleta. Caderninho das tormentas, Ossos do ócio são livros comoventes, sem auras, nem rótulos, feitos de vento e frescor. São leves e levianos e que, assim como os demais, são cantos apaixonados ao amadorismo, à não-escrita da obra com “o” maiúsculo. Invade à cena a letra minúscula que quebra a coluna vertebral do jargão e oferece passagem ao verbo alucinado. Os poemas sem título de Cheguei atrasado no campeonato de suicídio desenham a atmosfera dessa escrita que só tem meio, fluxo, na qual se diz acerca do infinito que habita a palavra. A linguagem de André Monteiro cria uma tensão entre o tropeço e elementos que sugeririam a ideia de uma ordenação possível. A série de listas que elabora, ao invés de totalizar, de buscar a síntese, diz da impossibilidade de se dizer a palavra definitiva. Ao pensar as listagens presentes nas narrativas de Borges, Foucault observava como as listas borgeanas esmiuçavam-se nas especificidades, criando para cada exemplo de coisa no mundo uma categoria, que acabavam por ironizar a própria pretensão de ordem e catalogação imposta aos objetos. Poemas como “elogio da anáfora”, “como fazer (ou não) um poema profundamente político”, “pelo menos pelo mais”, de Pan-flertes: escritos de esquina, podem ser lidas como listas à maneira borgeana, alfabeto ao revés, que oferecem a antireceita; panfletos transviados, libertos que estão da palavra que designa e oferece a saída. O livro celebra uma atmosfera de coletividade que desloca o nome autoral e transforma a linguagem poética num lugar de ritual e trânsito. Muitos são os nomes a quem são dedicados os poemas ou que aparecem referidos neles. São textos escritos do e para o encontro, como o texto “passagem de som”, de Ao vivo, para serem lidos no bar e, se chegarmos bem perto deles, somos capazes de conseguir sentir o cheiro da bebida e o barulho da festa. Um livro que busca a alteridade na referência aos amigos, nas leituras devoradas e no leitor que se vê seduzido para o festim, para a festa da palavra. Trata do escrever, dessas (im)possibilidades da palavra, da tensão entre o dizer e o não-dizer. Ao vivo e Cheguei atrasado no campeonato de suicídio bebem o presente, num movimento simultâneo de voltar-se para a criação do novo, para o que está vivo, de matar os poetas-modelos-deuses que o tempo (leia-se uma crítica crivada de rotulações) tratou de inventar e de, também, saber que não se pode (e nem se quer) matar por completo aqueles autores que estão inscritos no afeto. Estes, no entanto, não são paráfrases de uma letra morta, mas a (ins)piração para a coragem de continuar a envenenar de paixão a linguagem. O que faz a sua obra ser incompleta não é o fato do autor estar vivo e de que outras obras podem vir a ser produzidas na sequência dos anos, mas é a carne viva de sua palavra. Nela vige a incompletude, o demônio do verbo, o movimento circular de uma obra que se autoquestiona, que arma as jogadas e se põe em xeque. Esse livro é um desejo de não chegar ao fim, é “escrito de circunstância” no qual aquele que escreve não se acha suficientemente instalado como em uma casa. Se a linguagem for morada, como dizia Adorno, ela é transitória como uma barraca, um hotel ou uma casa alugada. A escrita de André Monteiro é tecido de provisoriedades. Seu livro é matéria de devir e deriva.


Nívea de Assis
(escritora cearense)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Tomando “Cheguei atrasado no campeonato de suicídio” aos goles

Sobre Cheguei atrasado no campeonato de suicídio, após vê-lo, em devir, entre as frestas das redes sociais, chegou-me às mãos no dia 31/05/2014 como presente do querido autor. Lindo! Foi o que exclamei repedidas vezes enquanto admirava a belíssima fotografia de capa, observando orelhas e dedicatórias. O calor vivo do corpo do livro, das páginas, a dança das palavras a se disporem e ocuparem e territorializarem os espaços, rompendo, infiltrando. Seria preciso aguardar os momentos de solidão em que o saborearia sozinho.

Primeiro fui à página 164. Depois, à página 170. As conexões aprofundaram-se, a observação de tantos nomes conhecidos trouxe, para mim, sabor de festa ao primeiro contato. Como sabemos, em um rizoma insaturável, como nessa obra, são muitas as portas de entrada. E a opção “por onde entrar” também modifica as conexões, o mapa do rizoma. Voltemos então ao princípio: é pelas esquinas, brechas e curvas que encontro amigos, conhecidos e antigos desconhecidos – encontros – como em uma festa aparecem em afetuosas dedicatórias ao desfolhar as páginas de “cheguei atrasado”. O belo encontro das forças. O “irrepresentável que se apresenta.”

Mas nem tudo são festas pelas frestas. Feridas doídas, adormecidas, marcas de cicatriz, quando são reconhecidas pelos olhos dos amigos é que, de alguma forma, também neles se põem a doer. E a dor é aguda e profunda: é vida!

Não é livro de um só fôlego, mas para ser tomado aos goles (já na página 106).

Um livro que não se cansa, do qual não se cansa. Com muitas esquinas, encontros, rupturas e aberturas. Um livro que exige paradas para pensar. Como um vírus, vai ocultando-se em organismo alheio, modificando-o sutilmente, afetando e interagindo com suas enzimas. É preciso se conter, pois a cada linha sentimo-nos atrasados para a próxima. Estamos constantemente em atraso em relação à leitura e releitura e ao repensar de “cheguei atrasado no campeonato de suicídio”. Mas a literatura dá um passo à frente. Como bem diz o poeta, “chegar atrasado é chegar sempre na hora certa de dobrar nosso depois” (p. 127).

(Estou atrasado, certamente, não só com o postar destas linhas, como também com a próxima releitura).

Sávio Damato
(escritor e mestre em Estudos Literários pela UFJF)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Suicídio a dois

É impossível fugir da palavra. Ela fala sem que se fale dela. Quando se tenta sem êxito falar nela ou falar-se através dela.. só se permite que ela se cale. Apenas quando se deixa deixar o todo da palavra viver na vida... e enfim ela te suicidar (antes a você suicidá-la.)... se pode anunciar que a palavra vem aí! E pronunciá-la em alto e bom som, pra que ela viva sem você.. mas se relacione COM você ..em todos os seus descontornos... vociferar a verve viva de uma palavra rara. A raridade da palavra não se cria pela criação incomum de alguma palavra inventadinha. A raridade da palavra se cria pela cria da palavra. Não sua. Nunca se propõe uma palavra. A palavra não se põe, nem se impõe à serviço. E ainda sim... é impossível fugir da palavra. Mesmo quando sendo a palavra coisa alguma... ainda sim é alguma coisa viva. Nenhuma palavra é nada, mas o algo da palavra... não é nada demais. Mas em um papel em branco todo algo é tudo. Aí a mania dos poetas de fazer poemas. Vem criar sua cria e a palavra se transfigura num criado. e mata-se o seu criar. Me avisem se achá-lo em alguma fresta dessa festa de letras frustadas, mas não creio. Chamam-me poeta, porque faço poema. É o poeta o que mais do que um sabedor de palavras? Quem não sabe das palavras que me diga! Eu só mendigo letras, que nem são letradas nem nada, e tento furá-las com a minha caneta, mas não dá. Só furo símbolos, suas possibilidades continuam possíveis e passíveis de ser alguma coisa sua. Não posso reivindicar minha autoria se nem sequer fiz poesia mais do que um vômito de coisas velhas que tirariam nota zero na prova de literatura da escola. O dono que se dane!! Eu sou aqui e ali aquele 

alguém
capaz de arrancar
aquela gargalhada mortal
não dos que debocham
mas dos que simplesmente
descobrem arrepiados
que estão vivos ".
Que palavras falam mais do que as que eu nunca poderia
mesmo que quisesse
dizer qualquer coisa
de alguma coisa sua.
Não digo sobre você
falo com você. Você
Você... que é um eu dos teus muitos nossos
nossos muitos meus são dele, ele sou nós daqueles muitos vocês. 

Em tempos - entre tropeços e gargalhadas, a gente vai rindo e tropeçando.

Ler o livro-janela Cheguei atrasado no campeonato de suicídio  é o mesmo que acontecer. É estar aberto a rachadura viral da vida que te consome e se consuma a todo instante que some e assume formas de escapar pelas beiradas da palavra. Não há o livro, há janela! Nos oferecendo a possibilidade de saltar. Mas "para saltar é necessário esquecer as possibilidades do salto e viver seus impossíveis". Saltar é suicidar-nos para ser - dentro do livro - um outro. Falem o que quiserem os críticos literários, André Monteiro não escreve em verso. André Monteiro escreve inverso, explode e afeta o que ainda não tem palavra. Monstruosidades vivas borbulhando e expelindo suas entranhas mais estranhas de tortuosidade tuas... e afirmando para todos os ouvidos e sensações: ESTOU VIVA!

Abraço a todos! Com a alegria dos que não sabem e descobrem!


Lucas Zylber
(poeta e estudante de filosofia da UNB)

sábado, 20 de setembro de 2014

Um poema breuluzente

A vida besta não basta
pra bosta que é tão vasta
O pé empurra o chão
ou afunda o pedal
tentando acelerar o caos,
rachar o solo,
virar e revirar a base
O corpo é uma estação,
qualquer parada nele
é sempre com o piscalertaceso
e já pronto pra vazar

O transe é óbvio,
a transa nem sempre
Tudo transborda quando ferve,
basta fagulhar
Tudo chacoalha quando toca,
na pausa ou no ruído

Convulso em plena valsa!

Na casca do ovo não cabe flagelo,
a carne é fraca –
forte não é pra ser
nem pra estar
Na cápsula do outro a seiva
é o fim da sede
Tem sempre uma dádiva pra assanhar
a dúvida,
nunca sanar.

A alma do negócio não é o negócio
da alma
O espírito da coisa não tem nada
a ver com a coisa do espírito
Despacha a certeza
e se lambuza de dilema, André!
Rola e rebola nessa lama,
mas não se abale
Ou abale!

A morte é curta,
longa é a vida
Plena?
Nenhuma delas
Por isso é fagulha
é fogo
é foda
é gozo
é porrada
é porre
é pilha
É lume e é breu!

Vai, André!
Mata a pau a porra toda!
E salve-se quem foder!



Julio Satyro é poeta e sociólogo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Carta aberta a André Monteiro, escritor de “Cheguei atrasado no campeonato de suicídio”.

Caro André, 

Você “tava” nos devendo essa obra, completa na sua incompletude, doravante habitante da nossa mesinha de cabeceira, aberta ou fechada, mas sempre falante, ainda que silente.

Obra poética em prosa e verso, não a conseguimos ir devorando, porque não somos nós que navegamos, quem nos navega é o mar. Obra que dá secura na garganta, e não queremos ler em silêncio nem em voz alta, mas queremos ler falando, falando de múltiplos ais que ela, suas múltiplas e inconsoláveis palavras-lavas, nos obrigam a exclamar.

Obra que pinta o sete, sete mares, Sete-estrelo do escorpião, sete cores do arco-íris, sete ventos-furacões que arrancam a rosa dos ventos e diz: Chega! Chega de “nortes”, prescrições, orientações, mapas e setas de direção, verdades eternas, crenças redentoras! Chega de ver prá lá do ver, do acontecer, do futuro merecer! Tudo é agora, neste Grande Acontecimento num vasto território aberto à vida.

Obra política, o verso vem feito faca, em múltiplas estocadas, (re)incidente, renitente, insistente, repetidamente, porque não se mata uma “doxa” com uma só facada.

Obra nua e crua, a céu aberto, despregada de um único Sol, um único senhor, esperando Godot nenhum, mas tudo querendo, tudo amando, tudo desejando na pluralidade dos “aconteceres impossíveis”, gozosos e dolosos.

Obra arrasa-quarteirões, querendo desorganizar os “quadrados”, “indisciplinar as disciplinas”, como você sempre nos diz, para arrancar de nós essas fardas vistosas, dentro das quais vamos sendo, desde cedo, comedidamente embalsamados.

Poética-Saci (duas pernas atrapalham a correr) cheia de travessuras, lúdica nos dribles, invertendo itinerários canônicos, divertindo-se com nossa operosidade artesanal, subvertendo nossas receitas de bolo, exorcizando o messianismo onde nos metemos grávidos de transcendência.

Enfim, obra potente, não na “grandeza epilética” do alvoroço, do estabanamento, mas na sutileza “molecular”,  partículas e não ondas, colidindo no campo de jogo limpo, metáforas possíveis, carne viva. Uma gota de ouro que cai numa poça de lama, explodindo num assombroso particulado de multissóis-girassóis. Nem reforma, nem revolução, nem rebelião, mas a divertida convicção de que: “não existe nenhuma maneira / de sair daqui / então tá / azar”.

Chegar atrasado a esse pérfido campeonato, que nos obriga o cano ao ouvido, o silencioso estampido com que nos prega no peito os símbolos da decência, da obediência, da (falsa) clarividência. Suicidar o espírito, a liberdade, o desejo inquieto, tudo para liberar as mãos para os trabalhos forçados, liberar os bolsos para o supermercado, Super Mercado, liberar as mentes para sorver os néctares de um mundo que apodrece a olhos (cegos) vistos.

Chegar atrasado: perder o trem, a locomotiva do progresso, a última moda, a com-postura, marchar à ré, destoar, desengonçar a geringonça que nos abraça feito urso polar, friamente, mortalmente.

Arrisco-me a escolher um verso entre esses outros mil que nos açoitam:
 “a vida é a própria arte e isso e tudo”
Dizer: “Parabéns!’ será sempre pouco!


Luiz Almeida
(engenheiro e escritor)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Deco

Em um árido ser tão ávido ao des-recolhimento vomitório de palavras, encontrei na vida um meio-irmão de poesia e cara. Seu sotaque mineiro com resquícios nordestinos e o sabor ácido de suas passagens políticas & poéticas me dão segurança daquilo que mais temi em minha etílica juventude: gritar sozinho em uma cidade linda e fantasmagórica. Dizer com os pulmões abertos e o coração fechado que tudo está certo porque, justamente, se encontra errado. 

Nesse campeonato, que não tem sequer vencedores, creio que meu meio-irmão é uma espécie de perdedor ilustre. Perdeu o nó da vida logo antes mesmo de nascer, quando, como eu, não pôde acompanhar in loco o respiro de nosso querido e amado suicida Torquato. Inexplicável também é o amor de outro André que o acolheu como um pródigo e lhe deu suporte para ser Sidarta.  

E para todo aquele anjo torto que se encontra no desencontro, há sempre um plano Beta, beat, beato. E para esse pensar vigoroso da desistência e da coragem, da insistência em si e da covardia, queria apenas que esse médium da revolução pudesse ser pensado, mesmo que de canto de olho, em um PDF de tablete, ou numa linha de rede social, ou mesmo de ônibus público, ou interestadual.

Que a poesia que grita em prosa de Deco possa se espalhar pela alma daqueles que, desde sempre, dependeram da terceira margem para sobreviver ao desejo de vida. Que os que desejam pular, atirem-se na vida de suas palavras e regurgitem o pensamento de suas loucuras discretas e indiscretas. 
Que Deus o ilumina?!



João Paulo de Oliveira
(escritor e jornalista)

sábado, 2 de agosto de 2014

Poema para o André Monteiro: do céu ao inferno e vice-versa

Vale o risco
sequestrar a alegria no futuro
compor poemas em uma sintaxe estranha
animar os mortos
deixar a consciência onde a fonte nasce
porque tudo tudo tudo é pouco e fuga.

O outrora intacto
agora estilhaço
relacionamentos
retratos guardados
diárias perdidas
aquele disco do Lennon estourando a madrugada
e o som vazio das sirenes se aproximando.

Ainda na estrada
ainda desafiando os limites de velocidade
ainda esvaziando todas as garrafas
de qualquer lugar do fim do mundo.

Porque ela não volta.

O risco vale
inventar outro modo de viver neste mundo estressado
árduo, suado e intrigado.

A suprema felicidade é amar ao outro como a ti mesmo
ah, para alguns de nós

a promessa de cumprir o impossível não é obrigatória.


Anderson Pires
(Poeta e professor de literatura da UFJF) 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Pequeno comentário para um livro-quase

Também acho que cheguei atrasada no campeonato de suicídio. Afinal, estava marcado para algum horário? Havia de fato alguma hora marcada? Atrasar não seria  apenas uma outra forma de chegar na hora exata? Existe alguma precisão nesse estar na hora? Enfim... Esse papo que se desenha entre atrasar e estar na hora acaba e não acaba sendo uma tentativa medíocre de iniciar o impossível gesto de  dizer algo indizível: apalpar o inventar do vento que o último livro de André Monteiro apresenta. Sem pedir permissão ou licença aos mitos, fui tocada pelas sensações da mística do impreciso tempo-não impresso na leitura de cada poema-quase desse quase-livro, objeto-não e sim. Na verdade, bem contra-verdade,  um quase estado-de-corpo apresentado por entre dobras, brechas, esquinas e travessias.  Onde a vida grita no rasgo escuro das gentes. É a mais bela e a mais profunda e justa música de seu silêncio, navega o caminho das pedras e representa o irrepresentável. Talvez porque, diante do que André Monteiro escreve, não seja preciso escrever nada. Apenas cuidar da arte de saber ouvi-lo... Em sensações que nos passam pelas coisas, levam-nos a tirar a roupa, produzir o escândalo do corpo-texto, pré-texto e anti-texto. E a tristeza nada mais é do que essa ilusão de se estar imóvel diante de tanta carne viva.


Fabrícia Valle 
(poeta e mestre em Estudos Literários pela UFJF)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Considerações sobre "Cheguei atrasado no campeonato de suicídio"

O poeta não se interessa por demarcações de identidade. Cidade e estado não o representam. Povo não o representa. Ao poetizar que "só o irrepresentável se apresenta", ele nem mesmo demarca seu "eu" (seja lírico, poético, o que for). Mas não é pela ausência de um eu que ele não deixa de ser. A identidade não é desprezada, assim como o ponto no gráfico não é nem vértice e muito menos belo horizonte. A identidade está ali, é a roupa que veste o poeta. Mas não nos enganemos: todo poeta está nu sob sua gravata. E nem mesmo a epiderme é traje o suficiente. 

André parece mais confortável caminhando pelo acostamento que pela estrada. Mas não dá as costas para a estrada, e nem se acomoda com a berlinda. Ele segue em frente, sem desprezar o chão e nem aclamar o passo. 

Sua expressão deglute referências das mais diversas, e nenhuma de maneira gratuita. Os clichês e lugares comuns se tornam reabilitados pelo traçado da pena, e um novo brilho se apresenta (ainda que os clichês decerto não o representem). 

Todo traço de identidade evocado por André nunca é visto como um fim. Nada é fixo, nem endossado (muito menos endoxado), mas tudo é trampolim; tudo visa o salto, no escuro, na fissura. Ele flerta com a morte para ganhar a vida. 

O campeonato de suicídio pode ser todo o desastre ocidental, todo o conservadorismo. Conservar aqui pode ser semelhante a empalhar, a querer manter vivo o que não mais pode ser. O atual estágio do capitalismo, travestido de democrático, não deixa de ser campeonato, onde os suicidas competem por cada bala da roleta russa. Ainda que se atrase, o poeta chega, pois o campeonato é o mundo e é parte da vida (ainda que não celebre a própria vida). Mas a arma aqui não tem a mesma munição. A bala não é doce. A flor na carabina fumega enquanto nega a chacina.  


Rafael Senra
(poeta, compositor e doutorando em Literatura pela UFJF)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Chegando em ponto – vida e vida de André Monteiro

Meninos, uma crítica orgânica de André Monteiro não seria aquela que trataria de uma relação entre vida e obra. Uma crítica orgânica de André Monteiro, que aqui está para além de um nome, seria aquela que trataria de uma relação entre vida e vida. Uma crítica de André Monteiro não ofenderia André Monteiro se por acaso o mandasse tomar no cu. Uma crítica de André Monteiro enrabaria André Monteiro e daí nasceria um filho monstruoso. André Monteiro adoraria ser enrabado. Ele não se prende a esses moralismos babacas, tampouco tem paciência para lidar com os afetos que impedem a ventilação do ambiente. André Monteiro e André Monteiro. Vida e vida. Uma inscrição dupla. Uma indistinção. Um devir. Um acontecimento. Um encontro entre a vida de André Monteiro e a vida de André Monteiro estaria no interior de uma política, de uma ação que supera as cartilhas partidárias, ou de uma ética, acionada e já incorporada à palavra est-ética. Aquele que diz que ainda é tempo de matar-se, mas passamos do tempo de cometer tal filhadaputice. Aquele cujo encontro entre vida e vida diz que já seria lugar comum romper-se aos vinte e sete, mas também aos cinquenta, aos trinta, aos quinze. Aquele que diz que morremos a conta gotas, sempre um pouco, pois nascemos no mesmo dia em que a morte se nos inscreve. O suicídio, disse-me uma vez um desses a quem chamo André, é um excesso de vida, uma força insuportável e incapaz de se conter em um corpo, aquilo que tomou uma proporção em função da qual não se consegue, numa encruzilhada, dar o passo em direção à manutenção da vida. Um desses a quem chamo André não é daqueles que vai ao túmulo de Jim Morrison lamber seus ossos, tampouco faz do vômito de Hendrix um troféu a ser exibido como fetiche marginal setentista. Um desses a quem chamo André prefere comê-los e saciar-se com os delírios musicais de quem deixa-se arrastar pelo beat até os limites da esquina, até optar pelas ruelas inesperadas, pelos poros inimagináveis da linguagem. Comendo, Andrés vão se formando e se formando e se formando... Zoando as palavras e com as palavras, esses muitos Andrés vão criando, do ócio e do ácido, suas potências lúdicas, vigorosas e alegres. Meninos, eu vi. Meninos, eu vejo. Uma crítica de André Monteiro não se rebaixaria frente ao outro, mas roubaria momentaneamente suas forças vitais não para matá-lo, mas para viver juntos. Já uma crítica a André Monteiro, no entanto, diria que nós também saímos vitoriosos de toda essa loucura. Uma crítica a André Monteiro jamais poderia rebocá-lo. Uma crítica a André Monteiro só seria uma crítica se assumisse de antemão a impossibilidade de apreendê-lo. Uma crítica a André Monteiro jamais seria uma crítica a André Monteiro, mas uma crítica junto com André Monteiro, como aquele que surfa e aquele que resgata o surfista. Criticar André Monteiro é antes de tudo amá-lo. Criticá-lo é ser contra os universitários predadores. Contra o ressentimento das criações amorfas. Contra o mofo dos salões caducos da academia. Contra todos os filhos da puta. Meninos, a vida e a vida estão passando... André e André. Quem não for capaz de escapar pelas brechas jamais poderá abraçá-los. 

Edmon Neto
(Poeta e doutorando em literatura pela UFJF) 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Gosto profundamente das integrações que cheguei atrasado nos faz fazer, essa esgrima constante com um processo de identificação do objeto por tentativa e erro e acerto de construir os limites de um que ora não é ora é demais, que ora é mais ora é menos, ora é à direita ora à esquerda, ora é claro ora é escuro, ora é gole ora é vômito. Enxergar só mesmo na aeróbica narcisista de se ver no espelho e de imediatamente se transpor para o espelho para ser sua própria imagem, por integração e por contrafactualidade, e a imagem nem é, porque não há mesmo um invólucro para o que somos, e nem é o contrário, o que seria um alívio, se a gente pudesse ser pelo menos o que não é. Testemunho de fé mesmo só no mundo político em que se é: driblar,driblar,driblar o caos reacionário, a mesquinhez da direita, a ausência de sonho da direita, a uniformidade reacionária, e então inventar pequenos gols, grandes gols, grandes enormes projeções visionárias de trave e de rede, a gente sendo garrincha e sendo o goleiro, nossa bola é nosso risco, nossa vida, a gente quer mesmo é desobedecer.


Regina Salomão
(professora e ativista política)

sábado, 5 de julho de 2014

Poesia na beira de um precipício


Não fui ao lançamento de Ossos do ócio, cheguei atrasado. Mas um dia esse livro chegou até mim. Na altura, embora novo, já tinha lançado um livro de poemas  - Sonhe com os sonhos: ou o ano em que tive 18 anos. Roberta, minha contemporânea que ainda não me conhecia foi ao lançamento e eu acho que comprou um exemplar. Um dia, quando já nos conhecíamos, voltou a falar do meu livro e me perguntou se eu conhecia as poesias de seu irmão André Monteiro. Em outra ocasião, me deu um exemplar de seu primeiro livro de poemas. Li para mim e para os amigos. André tornava-se para nós uma referência literária. À sua maneira, Roberta mantinha viva a poesia do irmão que partira da cidade pra continuar seus estudos. Era ela quem nos contava das suas descobertas e dos seus êxitos pra lá de Minas Gerais. Naquele tempo em Juiz de Fora, os jovens não lançavam livros de poemas. Os livros foram ousadias inaugurais. Desde então, não tinha dúvidas: André Monteiro era para mim o poeta maior da minha cidade para a minha geração. 

Fui fazer música e canção no Banco, depois, tratei de estudar língua e literatura na Faculdade de Letras. Na Letras, pouco do espaço criado pelos contemporâneos dos trovadores elétricos do extinto ICHL. Não se distribuíam mais zines como o Urgh!. André e Anderson Pires já nos faziam falta nos idos de 2004. Saudávamos os seus sucessos acadêmicos e literários e tentávamos seguir aquela trilha que conjugava produção acadêmica e literária.

Aos poucos, fui me aproximando do André. Gostei de saber que em André, vida, poesia e produção acadêmica se conjugavam. André é antes de tudo um militante do sonho de uma vida mais plena. Sua irmã repetia um achado seu: “a vida é muita curta para ser pequena”. Atrás do mesmo sonho, superamos as expectativas. Por vezes fomos mais longe do que podíamos. No mar aberto em que ele surfava, ainda tomávamos grandes caixotes. O caminho é de cada um. Encontraríamos o nosso? 

Finalmente chega-nos uma antologia, ou melhor, uma genealogia do André Monteiro que desde o esgotado Ossos do ócio de 2001 não lançara mais nenhum livro de poesia. Nos é portanto muito esperado um novo livro do André. Atrasado, posterior a uma série de lançamentos de jovens poetas que se lançaram pela Lei Murilo Mendes, ou pelas novas editoras independentes, o livro vem com tudo. Há até mesmo espaço para relembrarmos Ossos do ócio, seu eterno retorno em nossas vidas, o momento em que “a poesia passa pela vida e descontinua a mesma“. Livro de achados preciosos de um jovem que descobre a poesia. 

Em cinco momentos, adentra-se no pensamento de André Monteiro, de fora pra dentro, da superfície pro interior, do adulto pra criança, da resposta pra pergunta. Acima, na superfície, o imediato. Em pan-flertes: escritos de esquina (2010-2013), lê-se o poeta que já entende o que é e o que não é um poema político, o que é e o que não é um pan-flerte, um poeta... Aqui também se descobre o poeta retratista, o pintor dos tipos que se arvoram grandes na nossa pequena província, o leitor crítico de Drummond, de Torquato Neto, de teoria literária e um militante de uma filosofia de vida aprendida entre a vida e a academia. André não é um poeta nascido em Juiz de Fora, mas com certeza é um poeta de Juiz de Fora, pra juiz de fora, pros que vivem aqui. Do alto de seu pensamento, o poeta escreve manifestos, contesta verdades, destrói mitos, flerta com panfletos. 

Em cima de uma prancha bem pequena, que não leva mais ninguém, enfrenta a força dos mares proibidos com a desenvoltura de quem já sabe o que quer. 

Para além do pan-flerte da primeira parte, em que o poeta surfa com altivez, regressamos ao caderninho das tormentas (2002-2005). Aqui, o poeta ainda não surfa, quase se afoga. Sabe apenas que “ao redor do buraco tudo é beira”. É minha parte preferida, onde se vê “a alegria de quem não sabe e aprende”. A alegria de quem começa a se equilibrar na sua própria prancha. Aqui, o poeta faz prosa poética em ensaios mínimos, que armam e fortalecem o mínimo eu de Ossos do ócio (1990-2000) que vem logo a seguir. Por fim, nos damos conta que o poeta mantém teso o arco da sua promessa impressa no primeiro livro.

O livro então caminha para o seu ponto nevrálgico. Chegamos enfim ao longo poema que dá nome a antologia. Cheguei atrasado no campeonato de suicídio é um manual de sobrevivência na “orquestra escura das sensações”. É o seu projeto de vida, que não furta cores, nem abismos e que não evita os riscos de uma vida em eterno devir: 

é preciso criar um modo de desviar o olhar
de todos os espelhos tristes
que nos fazem farrapos
e
mais uma vez
deixar a rocha rolar
(...)
Como velhos e valentes leões sem dentes
Não desistem de suas garras e reinos de guerra
Como crianças criam asas para os abismos

O poeta aqui nos ensina que não há porto seguro que nos faça desistir dos devires, das vontades, da alegria. É preciso criar asas para enfrentar abismos, construir pranchas e mesmo pequenino se lançar sem medo ao mar da vida. Sim, a vida e sua potência podem nos afogar, mas não há alternativa senão se deixar viver. “O suicídio é prosa/ atraso é poesia. André segue em frente, caminho para o abismo final, mas se atrasa. O atraso é o seu antídoto contra o veneno do escorpião:  “chegar atrasado é chegar sempre na hora certa/ de dobrar nosso depois”. 

Por fim, depois da afirmação de sua vontade de viver: “cheguei atrasado no campeonato de suicídio / mas ainda quero viver”,  uma ode à vida (não a morte) dos que já se foram e à vida dos que aqui estão vivos. Apesar das cicatrizes: “a festa continua/ pelas frestas da casa” em seu eterno devir, amém.

Parabéns a Laura Assis, minha contemporânea na Letras que através da sua própria editora, Aquela editora, concedeu o espaço do livro para a poesia viva de André Monteiro, que sempre irrequieta se espalhava pelos zines, no boca a boca, em intervenções poéticas em shows de música, na internet... Muita produção partilhada que não se reunia em livro algum. O seu primeiro devir, pós (e com) Ossos do ócio, vira agora um livro, e isso mais que uma alegria. 



Pedro Bustamante Teixeira,
(Poeta, compositor e doutorando em Estudos da Literatura pela UFJF)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nas malhas do coração


André Monteiro, o poeta que sabe que um poeta não se faz com versos. 
Pode parecer óbvio – desde que Torquato nos deu a senha –, mas não é.
A poesia é de todo mundo, mas não é pra qualquer um. 
É um embate, um enfrentamento. Uma conjugação da valentia.
Entre tantos outros charmes e feitiços, claro.
A poesia é muita coisa. Um mundo. Uma galáxia.
Um das possibilidades de respiração por este planeta.
Uma revolução de pele. Uma ação direta da alma.
Coração-cabeça – Pessoa – Augusto de Campos
É, meu chapa, André Monteiro não está para brincadeira!
Xamã de Juiz de Fora, por dentro das inspirações do nosso tempo. 
Talha coisas quentíssimas nas malhas do coração:

aviso a uma navegante

não aceito suborno
aceito provocação
desse barco
só saio de coração

É o coração tingindo as dobraduras, as circunferências, as experiências totêmicas desta vida. Um coração explosivo, sanguíneo.
É o coração pensando, livre, leve e louco!
Coração de poeta num coração de xamã. Chamas!
Um livro de poesia no departamento de teoria literária não adianta nada. 
Como diria o Vaneigem, a “verdadeira poesia não dá a mínima para poemas.”
A poesia está em algum lugar, em todos. 
Naquele conhaque no centro da cidade, atrás da jarra de suco naquele filme mexicano, na lista telefônica, na briga de rua, naquele folk perdido, no oceano morno das lágrimas, naquele beijo apaixonadíssimo.
Na rua, na rua, na rua!
A poesia é a revolução. Mais uma vez, Vaneigem: “O seu recente abandono das artes torna mais fácil ver que ela reside antes de tudo nos gestos, num estilo de vida, numa busca desse estilo. Reprimida em toda parte, essa poesia por toda parte floresce. Brutalmente recalcada, anima os grandes carnavais revolucionários antes que os burocratas lhe fixem residência na cultura hagiográfica.”
Por isso, sendo poeta-xamã, mineiro dos tesouros que fixam o alumbramento nesta nossa existência que só se configura pela valentia, André nos escreve coisas como:

tudo
que
vi
li
fumei
ouvi
tomei
temi
amei
parti
trepei
aguentei
gemi
fudi
fugi
não flui
agora
aqui


No mais: Evoé, André! Estamos lendo, estamos livres, estamos lindos!


Fabiano Calixto 
(Poeta e tradutor)

domingo, 8 de junho de 2014

Andrés


Os saberes dos mundos nossos estão ali, bem ali no livro de André: livro tão André mas tão e tão André, que chegamos a plasmá-lo aqui, mesmo em casa, vendo-o ao lado e de frente e em muitas de sua dimensões de vida e arte e força, e ele,  André, matérico como sempre, radiosamente matérico,  sabe a que vem: e a quem vem quando avocado: não titubeia André: afirma: ah, esses um dos dons de André, proafirmar: por tanta e demasiada similitude com André em carne farta de intensividade em seu viver raro, risonho, poético, político, e bravo e altivo, gera-se o André em letra-poema-pensamento-vibração: diferido, diferido, diferido, pois plural plural plural plural: André (qual?) abre-se em Andrés: em cada poema,  dedos, bocas e faros e falos em distintas direções: Andrés atraem: Andrés cheiram a hormônio: frascos de pulsões no livro, e fora de; daí os efeitos de a hora-depois (Cheguei atrasado no campeonato de suicídio); na hora-depois, o depois de monológicos sentimentos que chegam na hora, que crêem no haver a hora, e por isso morrem (pensam que morrem, como se!): em André, suicídio algum, pois Andrés: campeonato algum, pois Andrés: joguemos aos ventos perfumes vitais, diz  André, e basta: bem na mão, toquemos –, eis: o livro espérmico.





Roberto Corrêa dos Santos
(Poeta, ensaísta e professor da UERJ)